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Com pandemia, transplantes de órgãos e de tecidos caem 39% no RSCom pandemia, transplantes de órgãos e de tecidos caem 39% no RS

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Publicado em 20/08/2020, Por GaúchaZH

– A gente fica naquela angústia porque está longe de casa, tem um filho. A espera é complicada, mas deixo tudo nas mãos de Deus. Quem sabe daqui a pouco aparece um coração que é para mim.

O relato de ansiedade e espera é o de quem, há cerca de dois anos, aguarda por um transplante de coração. As palavras de Roberto Carlos Bernardi, 52 anos, morador de Sananduva, traduzem o sentimento de pacientes que precisam aguardar pelas condições ideais para receber um novo órgão, procedimento que pode salvar ou mudar vidas.  

Esse cenário ganhou novos contornos em 2020, com a chegada da pandemia de coronavírus que causou alterações profundas na rotina dos hospitais. Uma das referências no país nesse tipo de cirurgia, o Rio Grande do Sul viu o número de transplantes cair nos primeiros sete meses deste ano.

Dados obtidos junto à Central de Transplantes do Estado mostram que o número de transplantes de órgãos e de tecidos caiu 39,20%. Entre janeiro e julho deste ano, foram 794 procedimentos do tipo realizados, contra 1.306 no mesmo período do ano passado.

Observando os dados mês a mês, é possível notar que a queda se inicia em abril, o primeiro mês completo de reflexos causados pela pandemia. Se considerado apenas o período entre abril e julho, a diminuição chega a 60%: o número baixou de 780, em 2019, para 312, em 2020.

Um dos motivos é a diminuição do número de notificações, que são as informações repassadas à Central de que há um possível doador. Entre janeiro e julho, o número caiu 12,63% na comparação com o mesmo período de 2019 – foram 339 em 2020 contra 388 no ano anterior. Segundo a coordenadora da Central de Transplantes, Sandra Lúcia Coccaro de Souza, muitas pessoas têm evitado procurar atendimento, mesmo com sintomas neurológicos, por medo de contrair covid-19. Assim, acabam morrendo em casa, o que inviabiliza a doação – na maioria dos tipos de transplantes, o procedimento só é feito quando o doador tem a morte encefálica confirmada.

– Elas não chegam a ter a chance de doar. Além disso, como foram instauradas medidas para diminuir a saída de casa, há menos acidentes, e os traumatismos cranioencefálicos são as principais causas que levam às doações de órgãos – explica. 

Com isso, o número de doadores efetivos, que são os pacientes em condições de doar, também caiu, de 141 para 116 – redução de 17,73%. O total de doadores com órgãos transplantados, que são aqueles que efetivamente passaram pelo procedimento, sofreu uma consequente diminuição. O número passou de 114 para 101, o que representa queda de 11,4%. 

 

Efeito nos hospitais

 Após o início da pandemia, os principais programas do Estado reduziram o número de transplantes em uma tentativa de direcionar os esforços. A Santa Casa, o Clínicas e o São Lucas, da PUCRS, que são considerados referências na área, tomaram a medida, priorizando casos de urgência e atendendo, na medida do possível, os demais casos. 

Todos os doadores precisam ter teste RT-PCR negativo para covid-19 em até 48 horas. No início, as equipes não tinham testes disponíveis, e os pacientes eram selecionados pelo histórico clínico e epidemiológico. Até agora, 22 doadores tiveram os órgãos e tecidos inviabilizados: 16 foram considerados suspeitos e outros seis tiveram o diagnóstico confirmado. Nos primeiros meses, no entanto, transplantes chegaram a ser descartados por falta de tempo para a realização do exame.

 

“Tenho que encarar”

Morador de Sananduva, no norte gaúcho, Roberto Carlos Bernardi, 52 anos, precisou se mudar para Porto Alegre em março. Ele é portador de uma doença chamada miocardiopatia dilatada, uma dilatação do coração que faz com que a capacidade de bombeamento de sangue seja reduzida. O vendedor aposentado precisou colocar um marca-passo há oito anos, mas, há dois, entrou na lista de transplantes:

– O que eu sinto mais é cansaço. Tenho que cuidar muito da minha alimentação, ingerir pouco sal e não comer demais para não sobrecarregar o coração, que está fraco. Não posso caminhar muito e para tomar banho é complicado, cansativo, mas estou indo.

Quando teve arritmia, em março, foi transferido para Porto Alegre para se tratar no Instituto de Cardiologia. Com a esposa, Elaine, mudou-se para a Pousada da Solidariedade, que acolhe famílias de vários Estados do país que aguardam por transplantes. O local é administrado pela ONG Viavida, que se mantém com doações.

O hospital informou que os transplantes são uma prioridade e que são realizados normalmente, sem interrupções, mas com adaptações necessárias em razão da pandemia. Mesmo com o receio do período atípico, Roberto mantém a fé:

– Eu estou no topo da prioridade, mas complicou porque as ruas têm menos movimento e o doador precisa estar livre do coronavírus. Eu preciso de um coração bem compatível comigo, porque ainda sou uma pessoa jovem. Teve uma época em que eu estava bastante apavorado, porque um transplante não é fácil. Mas agora eu estou tranquilo. Não sei como vai ser minha resposta na hora em que me chamarem, mas estou aí, tenho que encarar. É algo que eu preciso se quiser viver mais.

FOTO: ISADORA NEUMANN / AGENCIA RBS