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Saúde mental de alunos e experiências em meio à pandemia importam mais que recuperar conteúdos, dizem especialistas do RSSaúde mental de alunos e experiências em meio à pandemia importam mais que recuperar conteúdos, dizem especialistas do RS

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Publicado em 12/05/2020, Por G1/RS

As escolas estão há quase dois meses sem aulas no Rio Grande do Sul, devido à pandemia do novo coronavírus. Com isso, muitos pais estão preocupados com o aprendizado dos filhos durante o período de isolamento.

Especialistas alertam: mais importante do que recuperar o conteúdo perdido, é se preocupar com a saúde mental das crianças e dos adolescentes e o que a pandemia pode ensiná-los.

A professora do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Tatiana Lebedeff usou as redes sociais para discutir sobre o tema. No texto, ela pede que, depois que forem retomadas às aulas, as escolas reflitam com as crianças o que significou essa experiência para elas e para as famílias.

A educadora mostra a importância dos pequenos se libertarem durante o tempo em que ficarem isolados.

"Ninguém estava preparado para a educação domiciliar: nem escolas, nem crianças, nem famílias. Eu desejo que o retorno depois não seja sofrido, nem para as crianças, nem para os professores. Vejo os pais muito preocupados com nota, a avaliação, estão vivendo um momento de sofrimento. Vejo discussões de como vão repor as aulas, mas não uma discussão de como isso vai ser feito, a perspectiva de acolher essas crianças na escola, como será a nova rotina. Essas crianças viveram por muito tempo em uma rotina diferente, elas não vão voltar no mesmo ritmo", afirma a educadora.

Formada em Educação Especial, Tatiana tem mestrado em Educação e doutorado em Psicologia do Desenvolvimento. Para ela, discutir como serão retomados os conteúdos é importante, mas proporcionar um retorno tranquilo às aulas é ainda mais necessário, já que as crianças vão levar "marcas" de tudo o que aconteceu.

"Eu estava muito angustiada, as pessoas falando nas redes sociais sobre turno inverso, reposição de conteúdo. A escola não precisa pensar em reposição na primeira semana, no primeiro mês. Os alunos têm que viver vida de criança, correr".

"Me assustou que as pessoas estavam discutindo conteúdo, e não crianças como crianças", disse

A professora acrescenta a importância de se aprender questões mais amplas, como desigualdade social e solidariedade.

"Escolas particulares estão tendo aula remota, estão com atividades, mas tem crianças que estão em vulnerabilidade social, não têm computador, nem internet em casa. Não tem apoio familiar para estar fazendo alguma coisa. Muitas crianças dependem da merenda escola, por exemplo".

 

Aprendizados

Para a psicóloga terapeuta de indivíduos, casais e famílias Mara Lúcia Rossato, é fundamental que as crianças aprendam a lidar com a frustração.

"Isso é uma competência que tem que vir antes. A tendência e a natureza das crianças é querer satisfazer os seus desejos. Quem vai mediar um equilíbrio entre o que eu posso satisfazer e o que tenho que esperar é a educação que os pais dão. Quando os pais dizem não, a criança não vai gostar, mas é normal não gostar. Aí, os pais precisam ser firmes nesse não, para que as crianças criem a capacidade de suportar a frustração. É preciso ter um equilíbrio entre gratificar, satisfazer e frustar".

Outra questão que a quarentena traz, e também é um ponto que precisa ser trabalhado com as crianças, é o tédio. A psicóloga explica que é essencial que os pequenos saibam brincar sozinhos.

"Independente de crise e pandemia, [é importante] os pais darem condições para os filhos suportarem o tédio. A gente vê muito agora na pandemia reportagens de como distrair as crianças. Parece que as crianças precisam estar sempre envolvidas com alguma coisa. Isso não é tão saudável assim, é preciso aprender a lidar com o tédio, a monotonia, a rotina, aprender a ficar consigo mesmo. É o momento de dar chances para introspecção, que é saudável", afirma.

Sobre a volta às aulas, Mara explica que existem várias etapas do desenvolvimento. Para uma criança pequena, por exemplo, é mais importante que ela brinque, já que é com a forma lúdica que ela lida com as coisas.

"Através da brincadeira que as crianças pequenas elaboram os grandes temas da vida. Já as crianças em idade escolar têm que ter um equilíbrio entre brincar, ser criança, e aprender, que é uma coisa importante. E os adolescentes, quem está nos últimos anos do ensino médio, têm que se preparar para Enem, vestibular e pensar na vida futura. São etapas distintas do desenvolvimento."

De acordo com a psicóloga, as pessoas precisam entender que as coisas estão fora do comum e isso deve ser levado em consideração.

"Tanto pais, quanto professores, escolas e instituições vão ter que, de alguma maneira, incorporar isso: não vai ser como todos os anos. Não tem como recuperar um conteúdo no mesmo tempo. Vai perder algumas coisas, com certeza".

Nesse momento é mais importante dar um foco para a experiência de vida e o que isso pode nos ensinar nesse momento tão difícil, do que pensar em recuperar conteúdo", explica.

Para Mara, deve-se entender também que o aprendizado das aulas virtuais não vai ser o mesmo.

"Não porque é virtual. Não vai ser o mesmo porque é um momento de tensão. As famílias estão em casa, mas não estão tranquilas, não estão leves. É pai e mãe, muitas vezes, trabalhando, as crianças ali. São muitas coisas para administrar. É preciso lidar com essa frustração de que por mais que a gente tenha se esforçado, alguma coisa vai ficar pra trás".

"Crises, em geral, são momentos de grande perigo e ansiedade, mas também são de grandes oportunidades. A gente vê pessoas que têm criado coisas do nada, têm buscado alternativas. É possível crescer na crise".

 

Fortalecimento de vínculos

Segundo a psicóloga, para a criança enfrentar esse momento, ela precisa se sentir segura sobre sua ligação com os pais ou com os adultos cuidadores. Vínculo seguro, afeto e comunicação clara desenvolvem a chamada segurança básica.

"É importante poder falar de forma clara para as crianças o que está acontecendo. Não é porque uma criança é pequena que a gente vai supor que ela não está entendendo. As crianças são mais capazes do que a gente imagina de perceber as coisas que acontecem em sua volta. Elas podem não ter a clara noção didática do que é o vírus, a pandemia e a contaminação. Mas elas têm uma percepção afetiva emocional muito clara".

Conversando com as crianças é possível trazer à tona outros temas importantes.

"No momento que tu explica, que tem que ficar em casa porque tem um vírus, uma doença, e outras pessoas podem pegar se a gente sair, aí tu também começa a introduzir um outro conceito que é a empatia. Tu precisa estar em casa para cuidar não só de ti, mas também dos outros".

Outro ponto importante é que os pais abordem com as crianças temas como luto e morte.

"Porque também é uma forma de luto a gente perder a autonomia como a gente vem perdendo, perder a possibilidade de contato, de abraço. Crianças perdem o contato com os amigos, perdem o contato com familiares, com os avós, então, também tem que aprender a fazer esse luto. Mas da morte real também. Acho que é uma oportunidade de poder falar sobre isso. No geral, algumas famílias, alguns adultos, têm receio de abordar o tema da morte com as crianças. Mas é um tema que é necessário".

Por fim, Mara diz que é normal os pais se sentirem sobrecarregados, por isso, é preciso que as pessoas não se cobrem tanto em meio ao isolamento social e à pandemia.

"Nenhum adulto precisa ficar se torturando. É um momento atípico, então, é natural que não vai dar conta de tudo, e não precisa, e tudo bem. A gente faz o melhor que consegue fazer".

(FOTO: DIVULGAÇÃO SEDUC)