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Médicos alertam para falsa sensação de segurança em relação ao coronavírusMédicos alertam para falsa sensação de segurança em relação ao coronavírus

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Publicado em 17/04/2020, Por O Pioneiro

Embora o número de casos confirmados de covid-19 esteja apresentando uma estabilidade nos últimos dias na Serra Gaúcha, os riscos de infecção com o coronavírus e o desenvolvimento dos sintomas da doença ainda estão presentes, e os cuidados para evitar a propagação da moléstia precisam continuar. A médica infectologista Lessandra Michelin, uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), comenta que a evolução dos casos daqui para frente, em que haverá mais pessoas circulando nas ruas, vai depender do comportamento da população. Ela destaca que é preciso continuar mantendo distância, lavar as mãos conforme a orientação dos profissionais de saúde, usar máscaras e ficar em casa o máximo possível.

A infectologista explica que, se as pessoas começarem a sair de casa de uma hora para outra fazendo várias atividades na rua, sem os cuidados necessários e, ainda por cima, visitando outras pessoas, haverá uma provável propagação do vírus e sobrecarga nos hospitais.

— Vou sair de casa como sempre saí? Sair para encontrar os amigos? Não, porque a vida ainda não voltou ao normal — destaca.

Lessandra acrescenta que, em muitos casos, não tem ocorrido o distanciamento necessário em filas de bancos e supermercados e há até pessoas se cumprimentando com aperto de mãos.

A especialista analisa que a situação, no momento, está controlada do ponto de vista da demanda pelos serviços de saúde porque os dados verificados hoje refletem o que aconteceu há duas semanas, levando em conta o período até que os sintomas se manifestam a partir do contágio.

— O que você vê hoje é uma foto do que aconteceu há 15 dias. No início de abril, as pessoas estavam em maior isolamento social, havia mais pessoas em casa. A indústria ainda não havia retomado as atividades. Então estamos vendo uma procura baixa. Mesmo assim, internações têm acontecido — observa.

A indústria em Caxias do Sul retornou no dia 6 de abril com limitação de 25% do quadro de funcionários; no dia 13, retornaram de férias coletivas os trabalhadores da Randon e da Marcopolo. Conforme Lessandra, eventuais casos de contágio neste momento se refletirão em uma busca pelos serviços de saúde no início de maio. Por isso, a especialista reitera que a demanda mais adiante vai depender do comportamento e do grau de cuidado que a população tiver agora.

O pneumologista Luciano Grohs, professor de medicina da Universidade de Caxias do Sul, destaca que o coronavírus ainda não circulou de forma abrangente na população, de acordo com o que demonstrou a primeira rodada da pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). De mais de quatro mil pessoas testadas no Estado, apenas duas apresentaram imunidade contra o coronavírus, o que significa que a doença não aconteceu ainda. Por isso, é preciso ter cuidado com uma falsa sensação de segurança.

— O resultado do estudo nos traz uma série de inferências. Uma delas é de que o distanciamento social esteja funcionando. Mas as pessoas não estão imunizadas — alerta.

Com isso, o risco, na realidade, é o mesmo de um mês atrás, quando começaram as medidas de distanciamento da população. O médico comenta que os últimos 30 dias foram importantes para preparar melhor a estrutura da rede de saúde, ter mais equipamentos de proteção e mais informação sobre a covid-19. Não é possível saber, no entanto, até que ponto vai chegar a doença e a demanda pelos hospitais.

Grohs ressalta que pessoas dos grupos de risco precisam ficar em casa. E que a ampla testagem é necessária porque quem já teve contato com o vírus e está imunizado poderia ser detectado e retornar ao trabalho normalmente.

 

Tempo de internação

Lessandra Michelin aborda um outro ponto importante. O tempo de permanência dos pacientes de covid-19 nas UTIs. Enquanto que em outros casos, como de pneumonias causadas por bactérias, o período costuma ser de até sete dias, no caso da covid-19 o período chega a ser de três semanas. Nesta quarta (15), um homem de 64 anos, morador de Serafina Corrêa, que estava internado em Bento Gonçalves, morreu depois de 33 dias no hospital. Com isso, não basta apenas levar em conta o número de pacientes que vão precisar de UTI, mas por quanto tempo cada paciente grave vai mantar o leito de UTI ocupado.

Um outro aspecto da internação em UTIs é a ventilação mecânica utilizada nos pacientes. Conforme Grohs, não é qualquer ventilador que serve nestes casos, já que a insuficiência nas pessoas com a covid-19 que apresentam quadro grave exige uma grande pressão gerada pelo aparelho para atingir o volume necessário nos pulmões.

— São necessários ajustes mais complexos dos ventiladores para gerar pressões mais altas, uma vez que a forma pulmonar é mais grave — afirma Grohs, comentando que, com menos fornecimento de ventiladores no mercado, estão sendo buscadas soluções alternativas que não se sabe se serão satisfatórias.

 

Com isolamento, se ganha tempo

A infectologista Lessandra Michelin explica que não se orienta como medida a circulação geral de pessoas para que se gere imunidade na população por dois motivos: um deles é que ainda não há certeza sobre quanto tempo duram os anticorpos e não há garantia de que uma pessoa que já contraiu a doença não venha a se infectar novamente; o outro é que não se sabe como a doença evolui nas pessoas. Ela comenta, por exemplo, que uma das quatro pessoas internadas na UTI com quadro grave no Hospital da Unimed é uma mulher de 40 anos sem nenhum problema prévio de saúde.

Conforme Lessandra, com as medidas de isolamento, se ganha tempo:

— Tempo para fazer exames, tempo para encontrar medicamentos eficazes e tempo até para se chegar uma nova vacina. E, se todo mundo se infectar agora, não sei quem vai parar na UTI. Se temos uma jovem que não tinha doença nenhuma, não sei quantos vão evoluir assim.

Em relação a medicamentos, Lessandra observa que a hidroxicloroquina não tem se mostrado eficaz nos pacientes que acompanha no hospital, onde a substância também tem sido aplicada em pacientes que não estão na UTI. Segundo a médica, é diferente do Tamiflu, aplicado em pacientes com a Gripe A, que dava uma resposta melhor naquele caso, e bem abaixo de antibióticos aplicados a pacientes com pneumonia causada por bactérias, em que a resposta é efetiva.